D/s, vamos?

“O nome de esposa parece ser mais santo e mais vinculante, mas para mim a palavra mais doce é a de amiga e se não te incomoda, a de concubina ou puta. Tão convencida estava de que quanto mais me humilhasse por ti, mais grata seria a teus olhos e também causaria menos dano ao brilho de tua gloria.
Deus é testemunha de que, se Augusto – imperador do mundo inteiro – quisesse honrar-me com o matrimónio e me desse a posse, por toda a vida, de toda a Terra, seria para mim mais honroso e preferiria ser chamada tua rameira, que sua imperatriz.”

Heloísa de Paráclito numa carta a Abelardo


TODAS as relações amorosas são, em maior ou em menor grau, relações de Dominação de um e submissão de outro (D/s) e as relações D/s são relações amorosas como outras quaisquer.
Depois de um parágrafo tão tautológico é exigível uma explicação (aviso os espíritos BDSM mais inocentes que tautologia nada tem a ver com tautau tal como desabrochar nada tem a ver com tirá-Lo da boca).

Simplificando, os Homens são animais sociais que se movimentam subjectivamente em espaços (esferas), a esfera social, a esfera íntima e a esfera sexual, cada uma delas com códigos e rituais próprios (esta não é de todo a minha praia teórica!). as relações de amor entre um homem e uma mulher* ocupam ostensiva e extensivamente as três esferas; sendo das mais completas, complexas e exigentes relações que o ser humano é capaz, os equilíbrios de poder são difíceis e desejáveis.
Mas qual equilíbrio de poder?
Evidentemente um equilíbrio de poder subjectivo, nominalista e centrado num pacto erótico sinalagmático!
O que é equilíbrio para dois não é equilíbrio para todos e se uma das partes deixa de respeitar o pacto este considera-se imediatamente sem efeito desobrigando a outra parte ao seu cumprimento (característica básica dos pactos sinalagmáticos). Por outro lado creio que os seres humanos vêm geneticamente programados para um equilíbrio de poder que se reproduziu através das instituições sociais (casamento, machismo, fantasias teístas, etc…) que serviram bem os nossos antepassados e nos foram legadas como cimento da nossa intersubjectividade. A estrutura básica desse equilíbrio era simples.
A esfera sexual era do domínio da mulher que via o seu poder ser contrariado aqui e além por preceitos sociais machistas pouco eficientes ou pelo recurso igualmente inviável, a longo prazo!, à violação (estupro) dentro do matrimónio. A esfera íntima é, desde a caverna, uma esfera em que a mulher é senhora absoluta – consigo imaginar, deliciado, 10 mulheres Neandertal vivendo juntas tentando pôr-se de acordo com a disposição das pedras no solo da caverna ou a decoração do interior da cova!
A esfera social era o domínio do macho, desde a porta da caverna até à barbárie da guerra. ah, a apetecível esfera social!
É evidente que o modelo tradicional entrou em colapso total e só vale a pena perder tempo com ele porque a grande maioria das instituições sociais que o serviam continua activa e é modelo de base das nossas sociedades:
Monogamia, fidelidade, paternidade presumida, casamento, amor romântico (até que a morte nos separe) , etc…, um corrupio de barbaridades.
Surpreende-me a lentidão com que se popularizam instituições sociais alternativas quando, pelo menos no Ocidente, as mulheres há mais de uma geração que obtiveram paridade total na esfera pública (a visualização estatística dessa paridade demorará ainda uma geração nalgumas zonas do sócius, é preciso remover de lá os nossos pais e avós).
Neste ponto espero ter deixado claro porque considero todas as relações de amor, entre um homem e uma mulher, relações de dominação e submissão com configurações assimétricas em função da esfera em que decorre a interacção.

Obrigados a partilhar o poder com as suas parceiras amorosas na esfera social, para onde se vira agora a vontade de poder dos homens? Como reinventar o tão desejável equilíbrio entre dois parceiros amorosos?
Para ser sério não sei responder a estas perguntas; suponho que cada díade resolverá à sua maneira este problema, tenho visto imensas soluções felizes e um corrupio de soluções infelizes. em geral as relações D/s enquadram-se no primeiro tipo. D/s, vamos?
Mas vamos como e para onde?
Vamos sob contracto, de látego em punho, felizes para sempre até que a morte nos separe?
Era bom sim, teríamos descoberto a fórmula mágica, mas tenho más notícias.

Nas últimas décadas começou a proliferar uma nova configuração de relações de amor a que se convencionou chamar relações D/s, configuração ancorada nos preceitos e regras da comunidade BDSM. relações de transferência de poder mais ou menos extrema da mulher para o seu parceiro. Espero que estas relações se popularizem, agrada-me o carácter consciente e a clareza e liberdade dos pactos eróticos que as engendram. Nesta configuração a mulher cede parte, ou a totalidade, do seu poder tradicional na esfera sexual e íntima. Na esfera social a paridade tem de ser regra entre adultos livres e responsáveis. Acho uma irresponsabilidade contratar relações de poder assimétricas na esfera social. Observar transferências de poder no espaço público entristece-me tanto no modelo tradicional como noutro modelo qualquer. Mas as relações D/s, mesmo em casos extremos (estou aqui a pensar num contracto de escravatura consentida à semelhança de um “code noir” da Louisiana que regia as relações entre donos e escravos), não coloca os amantes ao abrigo do tempo, a realidade dos ritmos do desejo, a química do amor:
18 a 36 meses de paixão a que se segue o amor ou a extinção;
e sempre, sempre!, o sangue arrefece e os corpos aquietam-se.
Pergunto agora, como pode um ser sobreviver ao amor depois de ter conhecido e provado a paixão, a entrega e a posse numa relação D/s?
Como escapar à tentação de repetir tudo outra vez, deixando o território cálido bem conhecido para encontra tudo novamente noutro ser?
Como aceitar um terceiro incluído numa relação que foi desenhada para dois?
Como recalcar todos os estados de paixão nascentes?
O amor parece-me pobre, o amor e só o amor parece-me um estado de alma pobre, perdoem-me os corações românticos…

* é uma limitação severa deste texto, restrinjo-me a relações D/s entre homens e mulheres em que se dá transferências de poder da mulher para o homem de forma consciente e consentida.

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