Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
Esquecemos o rosto e esquecemos a voz
Quando o coração não bate mais
Não vale a pena fazer mais nada
Temos que deixar pra lá e tudo bem.
Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
O outro que adorávamos, que procurávamos sob a chuva
O outro que adivinhávamos num olhar de relance
Entre as palavras, entre linhas e sob a maquiagem
Um juramento escondido que adormeceu
Com o tempo, tudo se desaparece.
Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
Até as lembranças mais bonitas de você ter uma dessas caras
No corredor eu roubo os raios da morte
Sábado à noite, quando a ternura parte sozinha.
Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
O outro que pensávamos por um resfriado, por um nada
O outro a que dávamos vento e jóias
Para quem vendiamos a alma por alguns centavos
Na frente de quem nos arrastávamos como se arrastam os cães
Com o tempo vai, tudo vai embora.
Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
Esquecemos as paixões e esquecemos as vozes
Que sussurravam para você as palavras dos pobres
Não voltes tarde demais, especialmente não pegues frio.
Com o tempo
Com o tempo vai, tudo se vai
E nos sentimos enfeitados como um cavalo esgotado
E nos sentimos gelados numa cama do acaso
E nos sentimos sozinhos mas talvez confortáveis
E nos sentimos enganados pelos anos perdidos.
Pelos anos perdidos…
Versão de Bertrand Cantat do original de Léo Ferré
