Houve uma guerra franco-alemã perdida pela França de que não se fala: foi a que opôs o idealista Marx ao pragmático Proudhon.
É claro que Marx ganhou o combate. Ele teve um aliado de peso com Lenine e depois Stalin, que aplicaram a teoria comunista sobre uma grande parte da Europa. Sei que os devotos estimam que o Gulag não estava em Marx, mas a legitimação do uso da violência estava. Ora, o Gulag não é mais do que uma das formas tomada por essa violência.
Os intelectuais foram numerosos a se inscrever na fábula marxista durante o século XX, porque ela ia ao encontro do seu gosto pelas ideias, os conceitos, as palavras, o verbo, a retórica, a dialética, a sofistica. O idealismo marxista dominou a vida intelectual francesa durante a metade do século até 68. Porque o mês de maio enterra essa velha esquerda carregada por Sartre em França em proveito de um esquerdismo estruturalista encarnado por Foucault e alguns outros. O velho marxismo do papá se afundou como um castelo de cartas: a luta des classes, a vanguarda esclarecida do proletariado, a ditadura desse mesmo proletariado, o centralismo democrático, a violência parteira da revolução, tudo isso foi jogado nos caixotes do lixo da história. O estruturalismo anunciava com demonstrações bastante obscuras que existiriam estruturas invisíveis, indizíveis, inefáveis que governariam tudo o que existe!
Para Marx, não havia negros, nem amarelos, nem brancos, nem judeus, nem cristãos, nem muçulmanos, nem homens, nem mulheres, nem heterossexuais, nem homossexuais, mas sim burgueses exploradores e proletários explorados.
Com outros, Foucault incarna o estruturalismo que fornece a sua ideologia ao niilismo contemporâneo. o estruturalismo anuncia com demonstrações bastante obscuras que existiriam estruturas invisíveis, indizíveis, inefáveis que governariam tudo o que É! Exit da História, viva o reino das ideias puras.
Todos os estruturalistas abandonarão essa experiência porque ela se revelou um impasse filosófico. Mas a sua vida continuou do outro lado do Atlântico. Eles foram traduzidos nos Estados Unidos. Ora, os textos obscuros em francês traduzidos em inglês não ganham nunca em claridade, eles ganham mesmo uma dose suplementar de obscuridade. Juntemos a isso as glosas de professores que tornariam ainda mais incompreensíveis as teses desses autores franceses que eles mesmos já tinham abandonado há uma dezena de anos.
French Theory
Depois de maio de 1968, a História europeia contribuiu para tornar ainda mais caduco o arsenal conceitual marxista: abandono do socialismo par Mitterrand en 1983, precipitação dos seus aliados comunistas nessa aventura, queda do muro de Berlin en 1989, fim do Império Soviético em 1991: a esquerda francesa não podia mais olhar para Moscovo para pensar – a não ser para meditar sobre as ruinas e os escombros.
Ela então virou o seu olhar para Oeste e, fascinada pelos campus americanos, ela pediu conteúdo ideológico aos neoestruturalistas que haviam ido além do marxismo dogmático em proveito do esquerdismo cultural. De tal forma que aquilo que havia sido uma moda francesa, o estruturalismo, voltou a ser moda em França, meio século depois da sua morte sobre o nome de … French Theory! O proletariado não é mais o ator da História, ele é instado a deixar seu lugar para as minorias: ele irá se consolar deste despedimento teorizado por Terra Nova* em casa dos Le Pen.
Esta teoria francesa, tão pouco francesa depois de ter passado pelos liquidificadores da tradução e da glosa universitária, critica, entre outras coisas: a razão ocidental, a possibilidade de uma verdade, o “falocentrismo” para utilizar o conceito de Derrida que denuncia assim o poder dos discursos do macho branco ocidental, os processos democráticos do debate e de decisão, a diferença entre os sexos, a escritura da História pelos Ocidentais.
Ao mesmo tempo ela ajusta as margens como centros: os homossexuais, os transgênero, as mulheres, os negros e magrebinos, os imigrantes, os muçulmanos, mas também, estes eram os sujeitos prediletos de Foucault, os presidiários, os loucos, os hermafroditas, os criminosos, e até mesmoo, estes eram os heróis de Deleuze, os drogados ou os esquizofrênicos. Desde logo, o proletariado não é mais o ator da História, ele é instado a deixar seu lugar para as minorias: ele irá se consolar deste despedimento teorizado por Terra Nova em casa dos Le Pen..
A esquerda marxista monolítica, perdida depois da morte de Marx e do seu império, deixou o lugar para a esquerda molecular. A primeira visava a universalização da sua revolução; a segunda a generalização do comunitarismo**. A antiga dava medo ao capital, a segunda o deixa feliz: destruindo as nações, os povos, os países e os estados, ela acelera o movimento em direção a um governo mundial que será tudo, menos de esquerda. Os GAFA*** já trabalham nisso.
Michel Onfray
(*) https://fr.wikipedia.org/wiki/Terra_Nova_(think_tank)
(**) Tribalismo.
(***) Google Amazon Facebook e Apple
Fonte original: https://www.tribunejuive.info/2020/06/19/michel-onfray-la-gauche-acephale/
